A sinaleira, o não sonho e os naval – Por Guellwaar Adún

Há mais de vinte anos, um grande Educador perguntou a uma criança, que atuava como franelinha em uma das inúmeras sinaleiras de Salvador, qual seria seu maior sonho, e    chocou-se com a resposta:

Eu sonho com uma sinaleira só pra mim!”

Repeti a pergunta do Educador, anos depois, dessa vez na Av. Joana Angélica, quando trabalhava com crianças em situação de rua por terem seus Direitos Básicos negligenciados pelo Estado.

O padrão de resposta orbitava o mesmo planeta da desesperança. Obtive um sincero e triste:
Sonho? Não tenho nenhum sonho, não. Ainda quero sonhar um dia”.

No dia 04 de junho de 2012, vinte e dois anos depois da pergunta que fiz ao menino que morava nas calçadas e três meses após a investida reincidente da Marinha do Brasil contra o Quilombo Rio dos Macacos, naquele fatídico 04 de março, a resposta aflita das crianças quilombolas não me entristeceu menos que as duas situações narradas anteriormente. Ao serem indagadas sobre seus maiores sonhos e medos não titubearam: Eu tenho medo dos naval”.

 Alguns puristas poderiam atentar para o suposto erro de português na frase, ignorando que essas crianças, assim como seus pais, foram e são impedidos de ir à escola, pois para acessarem a rua principal, necessitariam passar pelo portão de um condomínio de luxo da Vila Militar, onde moram marinheiros e fuzileiros de outros Estados brasileiros. Esse acesso nem sempre é autorizado, portanto para chegarem à escola, crianças, adolescentes e adultos, trilham um longo caminho de barro, que em dia de chuva torna-se inviável à passagem.

 O sol da liberdade em raios fúlgidos é ofuscado para as populações não-brancas brasileiras com a anuência do Estado brasileiro. Esse fato é comprovado, inclusive, por organismos tímidos do Governo. Entretanto, ao constatar que dentre os desprovidos do calor vital dos Direitos Humanos encontram-se crianças, é evidente que precisamos nos questionar sobre o caráter democrático instaurado no Brasil.

Governo Dilma encontra-se apático, dividido e inerte diante da situação. Conforme o Deputado Federal Valmir Assunção, esse Governo, que foi eleito pelos trabalhadores, tem se mostrado intransigente e inoperante quando a questão agrária é posta à mesa.

Ventilar a possibilidade de relocação dos Quilombolas seria admitir que a Presidência da República escolheu um lado, o da Marinha, atualizando assim o papel de Domingos Jorge Velho como destruidora de quilombos. Aquele chão está carregado de história para a comunidade do Rio dos Macacos e sabemos o quanto isso é importante para as comunidades tradicionais, além de ser um direito constitucional.

Quando crianças são privadas de sonhar e tantas outras manifestam fobias em relação aos militares, algo muito grave com o Estado de Direito, previsto na Constituição da República, se anuncia escandalosamente. Um país com esse perfil não pode, sob hipótese alguma, ser considerado “em desenvolvimento”. Eduardo Galeano diz que “se não nos deixarem sonhar, não os deixaremos dormir”. Rio dos Macacos nos lega uma insônia permanente em nossos dias. Nenhum passo atrás será dado pela defesa dos seus direitos. Nenhum passo.

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Sobre jornalori

Jornal comunitário que começou seus ensaios em 2009, de forma bastante tímida e amadora. O Jornal Itacaré Mostra sua Cara, não conseguiu a cara que se desejava. Faltava uma dinâmica, não existia uma equipe, o orçamento era escasso. Em 2010, a Oficina de Jornalismo Comunitário conseguiu reunir duas turmas de jovens e adultos com uma dinâmica de aulas de fotografia, redação, edição de texto, técnicas de entrevista e blogagem. O desafio era conseguir preparar as pessoas para a prática do jornalismo comunitário, fosse pra escrever no nosso jornal, fosse para escrever em qualquer jornal, ou criar um. A ausência de um veículo de comunicação com qualidade no nosso município sempre foi um elemento inquietante em todas as pessoas envolvidas nesse trabalho e o Itacaré Mostra sua Cara não conseguiu amenizar essa inquietação. Na sequencia da oficina, conseguimos compor uma equipe redação que se sucedeu em 2011, à aprovação do Projeto “O Direito é Humano”, do Fundo Brasil de Direitos Humanos e as oficinas com software livre para edição de imagens e diagramação através da Rede Mocambos. O Jornal Orí, em sua primeira edição com esse nome, traz esse histórico de um processo aprendizado comunitário que tem muita relação com os princípios de “escola aberta” e “conhecimento livre” que também é princípio da Casa do Boneco de Itacaré. Apesar da iniciativa ter nascido na Casa, ela não é “da Casa”, mas se trara de uma ferramenta colaborativa desde que não fira com os princípios da construção e existência desse jornal. Ou seja, continuamos abertos para outros escritores, para somar a nossa equipe de redação, ou simplesmente para o começo de um aprendizado. Durante 8 meses, o nosso Orí vai priorizar o direito à Saúde da População Negra e outros direitos públicos indispensáveis. A escolha versa muito sobre a realidade de descaso e abandono desses direitos para a população negra em nosso município.
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